A Terceira Margem
   Jan Huizinga ``O Declínio [ou, Outono] Da Idade Média´´, ed Ulisseia, Portugal, 1996

``(.) E começou então a luta do espírito que pretende elevar-se acima das imagens. Luta igual em todas as épocas e entre todas as raças. Diz-se dos místicos que não têm data de nascimento nem pátria. (.)

Sem metáforas é impossível exprimir um único pensamento. Todo o esforço para se erguer acima das imagens está condenado ao insucesso. (. ) não satisfaz as necessidades do coração, e onde a filosofia já não encontrar expressão entra novamente a poesia. O misticismo redescobriu sempre o caminho que vai das alturas vertiginosas da sublime contemplação até os prados em flor do simbolismo. O doce lirismo dos velhos místicos franceses, S. Bernardo e os Vitorinos, virá sempre em auxílio dos visionários quando o recurso de expressão se tiverem esgotado. (.)

A Igreja receou sempre os excessos de misticismo, e com razão, pois o fogo do êxtase contemplativo, para consumir formas e imagens, necessita de queimar todas as fórmulas, conceitos, dogmas e mesmo os sacramentos. A verdadeira natureza do transporte místico, todavia, implicava uma salvaguarda para a Igreja. Elevar-se à claridade do êxtase, errar nas alturas solitárias da contemplação esvaziadas de formas e imagens, saborear a união com o princípio único e absoluto era para o místico a graça singular de um momento. Ele tinha de descer das alturas. Para mais, os extremistas, com o seu séquito de enfants perdus transviavam-se na panteísmo e em excentricidades. Os outros, porém - e é entre eles que se encontram os grandes místicos -, nunca se perderam no caminho do regresso à Igreja, que os esperava com o seu sensato e económico sistema de mistérios fixados na liturgia. Oferecia a todos os meios de alcançar em dado momento o divino princípio em toda a segurança e sem o perigo de extravagâncias individuais. Economizava a energia mística e foi isso o que sempre a fez triunfar dos perigos com que o misticismo a ameaçava.

``A filosofia unitiva é irracional, insensata e louca. O caminho do místico conduz à inconsciência. Ao negar toda a relação positiva entre a divindade e o que tem nome e forma, a operação da transcendência é ao mesmo tempo abolida: `Todas as criaturas´, diz Eckhart, `são apenas coisa nenhuma; não digo que são pouco ou alguma coisa: são nada. O que não tem entidade não é. As criaturas não tem ser, pois o seu ser depende da presença de Deus.´ O misticismo intenso significa um retorno à mentalidade pré-intelectual. Tudo o que é cultura fica esquecido e anulado.

Se, no entanto, o misticismo deu, em todos os tempos, abundantes frutas à civilização, é porque se eleva sempre gradualmente e porque nos seus estágios iniciais é um poderoso elemento de desenvolvimento espiritual. A contemplação exige uma severa cultura de perfeição moral como no estado preparatório. A cordura, a repressão dos desejos, a simplicidade, a temperança, o trabalho praticados pelos místicos criam neles uma atmosfera de paz e fervor religioso.

Todos os grandes místicos louvam o trabalho humilde e a caridade. Nos Países Baixos estes caracteres concomitantes do misticismo - moralismo, pietismo - tornam-se a essência de um movimento espiritual muito importante. Das fases preparatórias do misticismo intensivo de una poucos saiu o extensivo misticismo da devotio moderna de muitos. Em vez do êxtase solitário dos bem-aventurados surgiu um hábito constante e coletivo de sinceridade e fervor, cultivado pelo simples habitantes das cidades na convivência fraterna das irmandades e dos conventos. Eles só possuiam um misticismo de retalho. Tinham sido tocados apenas por `uma pequena centelha´ . Mas entre eles nasceu o espírito que deu ao mundo a obra em que a alma da Idade Média encontra a sua mais frutuosa expressão durante muito tempo: A Imitação de Cristo. Tomás Kempis não era teólogo, nem humanista, nem filósofo, nem poeta, e pode mesmo dizer-se que não era verdadeira místico. Todavia escreveu o livro que iria consolar as almas durante séculos. Foi talvez aqui que a transbordante imaginação do espírito medieval pode ser captada no seu mais elevado sentido.

Tomás Kempi faz-nos regressar à vida quotidiana.´´

Escrito por Maleus às 01h44
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   Dois Amores - Duas Cidades, Volume I, paginas 178 e 179 (A envoltoria divina [18]), AGIR Editora

"Para encerrar este longo capitulo sobre as envoltorias do homem devemos dizer alguma coisa da mais alta, da mais importante e da mais atuante esfera que envolve o homem. Referimo-nos a Religiao, nao apenas a sua refracao cultural que se localiza nas esferas antiriormente mencionadas, mas a sua realidade sobrenatural.

O Espirito de Deus, desde toda a eternidade, envolve o mundo do homem transcendendo a historia, e apenas aparecendo nas refracoes culturais das obras humanas. As religioes naturais, no Egito, na Mesopotomia, na Grecia, sao projecoes da alma humana, e seus deuses sao de humana invencao. Ateh que ponto? Eh pacifico que em todos os lugares e em todas as epocas a graca de Deus, polarizada, e derivada da plenitude de gracas do Cristo, persegue as almas humanas nos seus atos, nos seus gestos, nos seus pensamentos secretos. Mas nada sabemos de alguma alianca de Deus, e de algum compromisso Seu com os cultos egipcios e hindus. O que sabemos eh que, a partir da Encarnacao do Verbo, e da consumacao das profecias com a morte do Cristo na Cruz, a presenca da atmosfera divina entra na historia, desce as estruturas visiveis da Igreja, e cristaliza-se ao tocar no chao, de onde jorra a agua do batismo, e onde nascem o grao e a uva.

Depois desse Fato temos uma Igreja instituida, visivel nos seus membros e nos sinais sagrados, e invisivel na sua alma criada - a graca santificante - e na sua alma Incriada, o Espirito Santo. Sua presenca no mundo traz uma serie de envoltorias que influem nas outras anteriormente descritas.

As mais proximas sao as que formam nao apenas o arcabouco visivel da Igreja, mas tambem o firmamento dos valores cristaos, dos dogmas, das ideias, dos principios conscientemente vividos, mal ou bem, pelos que professam a feh crista. E acima do firmamento, ou em torno de todos, o ar
de santidade, o oxigenio do amor, a atmosfera da Comunhao dos Santos dentro da qual, para as opcoes decisivas, existe, vive, toda a humanidade. Essa envoltoria da Misericordia de Deus transcende todas as civilizacoes, nao sendo privilegio de nenhuma; mas influi em todas, encontrando nesta maior docilidade e naquela maior contradicao. Quando uma civilizacao, com todos os seus erros e defeitos, coloca as matrizes de valores e ideias culturais em subordinacao as ideias e aos valores revelados, pode-se dizer que eh uma Civilizacao Crista: e assim foi a Idade Media;o corpo natural dessa Civilizacao Crista pode ser chamado uma Cristandade.

Quando porem os criterios civilizacionais contrariam os criterios cristaos, subsistentes, mas em situacao de conflito, podemos dizer que existe Cristianismo (que sempre existirah), mas nao se pode mais dizer que existe aquela estrutura cultural inspirada de criterios cristaos para a sua propria dinamica temporal que se chamava Cristandade".



Escrito por Maleus às 01h42
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Assim, partilhando as tribulações de Eva, Maria não partilhou as do parto com dor. Ela foi uma exceção da regra geral, gozou de grande prerrogativa, sofreu da morte sem ser aprisionada pôr ela.. Não seria uma impiedade dizer que Deus não tenha querido poupar o corpo de sua mãe da podridão, da mesma forma que quis conservar intacto o pudor de sua virgindade? Não cabia à bondade do Senhor conservar a honra de sua mãe, pois ele viera não para destruir a lei, mas para cumpri-la? Se Ele a honrou durante sua vida mais que a qualquer outra pessoa, pela graça que lhe fez de o conceber, é ato piedoso crer que a honrou também em sua morte com a preservação particular e uma graça especial. A podridão e os vermes são a vergonha da condição humana, e se Jesus esteve isente deste opróbio, Maria também, já que Jesus nasceu dela. A carne de Jesus é carne de Maria, que Ele elevou acima dos astros, honrando com isso toda a natureza humana, mas sobretudo a de sua mãe. Se o filho tem a natureza da mãe, é conveniente que a mãe possua a natureza do filho, não quanto à unidade da pessoa, mas quanto à natureza corporal. Se a graça pode fazer que haja unidade sem que haja comunidade de natureza, com mais razão quando há unidade na graça e no nascimento corporal. Há unidade de graça, como as dos discípulos com Cristo. Ele mesmo diz: “Afim de que eles sejam um como nós somos um”, ou, em outro lugar: “Meu pai, quero que eles estejam comigo em todo o lugar que eu estiver”. Se Ele quer Ter consigo aqueles que, reunidos pela fé, formam com Ele uma mesma pessoa, que dizer em ralação à sua mãe, cujo lugar digno para estar só pode ser em presença de seu filho? Tanto quanto posso crer, a alma de Maria é honrada pôr seu filho com uma prerrogativa ainda superior, já que ela possui um Cristo o corpo desse filho que ela gerou com os caracteres da glória. E pôr que esse corpo não seria o seu, já que ela o concebeu? Se uma autoridade maior não o negar. Creio que foi pôr Ele que ela gerou, pois tão grande santidade é mais digna do Céu do que da Terra. O trono de Deus, o leito do esposo , a casa do Senhor, o tabernáculo de Cristo, t6em o direito de estar onde ele próprio está. O Céu é mais digno de conservar tão precioso tesouro. Como a incorruptibilidade, a dissolução causada pela podridão é conseqüência direta de tanta integridade, não imagino que esse santíssimo corpo poderia ser abandonado com alimento dos vermes. Mas as graças incomparáveis que lhe foram concedidas permitem-me rejeitar esse pensamento, baseado em várias passagens da Escritura. A Verdade disse a seus ministros: “Onde estou, ali estará também o meu ministro”. Se essa sentença geral referem-se a todos os que servem a Cristo pôr sua crença ou pôr suas obras, aplica-se especialmente, sem a menor dúvida, a Maria, que o ajudou pôr todas as suas obras: carregou-O , deitou-O na manjedoura, oculto-O na fuga para o Egito, guiou seus passos na infância , seguio-O até a cruz. Ela não podia duvidar de que ele fosse Deus, pois sabia tê-lO concebido não por sêmen viril, mas pela aspiração divina. Ela não duvida que seu filho tem poder de Deus, daí ter-Lhe dito: “Eles não tem vinho”, sabendo que Ele poderia, com um milagre, produzi-lo. Portanto, Maria foi, por sua fé e suas obras, servidora de Cristo. Mas se ela não está onde Cristo quer que estejam seus ministros, onde então estaria? E se está ali, é com a mesma graça dos outros? E se é com a mesma graça, como fica a igualdade diante de Deus que dá a cada um conforme seus méritos? Se foi por mérito que Maria recebeu em vida tanta graça, esta poderia ser menor quando morta? Certamente não! Se a morte de todos os santos é preciosa, a de Maria é preciosíssima. Assim, penso que Maria, elevada às alegrias da eternidade pela bondade de Cristo, foi ali recebida com mais honras que os outros, e ela não teve de sofrer depois da morte o mesmo que os outros homens, podridão, vermes e pó, pois ela gerou o Salvador de si mesma e de todos os homens. Se a divina vontade escolheu manter intactas na meio das chamas as vestes das crianças, por que não preservaria as de sua própria mãe? A misericórdia que quis manter Jonas vivo no ventre da baleia não concederia a Maria a graça da incorrupção? Daniel foi preservado apesar da grande fome dos leões, e Maria não teria sido conservada pelos méritos que a dignificavam? Portanto, reconhecendo que tudo o que dissemos ocorreu contra as leis da natureza, não podemos duvidar de que a integridade de Maria, deveu-se mais à graça que à natureza. Cristo, como filho de Maria, fez com que a alegria dela decorresse da alma e do corpo de seu próprio filho, que não a submeteu ao suplício da corrupção para dar à luz íntegra, sempre incorrupta, cheia de graça, e vivendo integralmente porque gerou aquele que é a vida íntegra de todos. Se falei como devia, Cristo, aprouve-me, você e os seus seguidores. Se não falei a verdade, peço que você e os seus me perdoem.”



Escrito por Maleus às 17h28
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   O bem-aventurado S. Geraldo mostra em sua homilias o quanto ela foi celebrada na glória celeste: “Somente o Senhor Jesus Cristo poderia engrandecê-la com o fez, para que ela recebesse da própria majestade louvor e honra contínuos, rodeada pelos coros angélicos, cercada pelas tropas arcangélicas, acompanhada pelo júbilo dos Tronos, no meio do entusiasmo da Dominações, cercada pela deferência dos Principados, aclamada pelas Potências, honrada pelas Virtudes, cantada pelos hinos dos Querubins e pelos cânticos indescritíveis dos Serafins. A própria e inefável e eterna Trindade alegra-se com ela, aplaude, cobre-a com a sua graça que excede a todos. O ilustríssimo grupo dos apóstolos louva e exalta a Virgem de forma inefável, toda a multidão dos mártires dirige súplicas a tão grande senhora, o inumerável exército dos confessores dirige-lhe magníficos cantos”.
O Senhor disse a Pedro: “Sepulte o corpo de minha mãe com o maior respeito, e guarde-o cuidadosamente durante três dias, pois então virei e o transportarei para o lugar onde não existe corrupção e o revestirei de claridade semelhante à minha pois é conveniente que haja acordo entre o que foi recebido e o que recebeu”.
S. João Damasceno, de origem grega, conta coisas maravilhosas a respeito da santíssima Assunção. Em um de seus sermões ele diz: "Mas como a morte poderia se impor àquela que é verdadeiramente bem-aventurada, que ouviu a voz de Deus, que carregou a misericórdia do Pai em seu útero, que concebeu sem contato com homem, que deu a luz sem dor? Como a corrupção ousaria alguma coisa sobre um corpo que carregou a própria vida?”
O Damasceno diz ainda em outro sermão: “O seio da terra não podia reter o santuário de Deus, a fonte inviolada. Era adequado que a mãe fosse elevada pelo filho, que subisse para ele como ele descera nela, de que a mãe usufruísse do que pertence ao filho”.
S. Agostinho também trata em um sermão, com muitos argumentos, da santíssima assunção: “Antes de falar do santíssimo corpo da perpétua virgem e da Assunção de sua alma sagrada, digamos primeiro que a Escritura não se refere a ela depois que o Senhor na cruz recomendou-a ao discípulo, a não ser aquilo que Lucas relata nos Atos Dos Apóstolos: “Todos perseveraram, unanimemente, na prece com Maria, mãe de Jesus”. Que dizer então de sua morte? Que dizer de sua Assunção? Já que a Escritura se cala, deve-se pedir à razão que nos guie para a verdade. Portanto, que a verdade seja a nossa autoridade , pois sem ela não há autoridade. Baseados no conhecimento da condição humana é que não hesitamos em dizer que ela sofreu morte temporal, mas se dizemos que ela foi alimento da podridão, dos vermes e da cinza, devemos considerar se esse estado convém à sua santidade e as prerrogativas desta casa de Deus. Sabemos que foi dito ao nosso primeiro pai: “Você é pó e ao pó voltará”. A carne de Cristo escapou dessa condição pois não foi submetida ``a corrupção, foi poupada da sentença geral que foi tomada da Virgem. O Senhor disse também à mulher: “Multiplicarei suas misérias e você dará à luz com dor”. Maria teve sofrimentos, uma espada transpassou sua alma, contudo deu à luz sem dor.
 


Escrito por Maleus às 17h28
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   Sempre Maria

Sobre a Assunção de Nossa Senhora.
O Senhor só esteve três dias no sepulcro, logo ressuscitou e subiu aos Céus. A morte da Senhora mais parece também um sono breve. E é por isso que lhe chamam “dormitio”, dormição. Antes de a corrupção lhe poder tocar no corpo imaculado, Deus ressuscitou-A e glorificou-A nas Céus. A dormição, ressurreição e assunção da Virgem SS formam o tríplice objeto da festa. Não tendo o pecado penetrado nunca na Sua alma puríssima, era conveniente que o Seu corpo, isento de toda a mancha e do qual o Verbo se dignou incarnar, não chegasse a sofrer a corrupção do túmulo.
A I de Novembro de 1950, o Santo Padre Pio XII definiu o dogma da Assunção as SS Virgem Maria. Proclamava assim solenemente que a crença segundo a qual Maria, ao fim da vida terrestre, foi levada em corpo e alma à glória do Céu, faz realmente parte do depósito da fé, recebido dos Apóstolos. “Bendita entre todas as mulheres”, em razão da Sua maternidade divina, a Virgem Imaculada, que desde a Sua Conceição tivera o privilégio de ser isenta do pecado original, não devia conhecer a corrupção do túmulo. Para evitar qualquer dado impreciso, o Papa absteve-se inteiramente de determinar o modo e as circunstâncias de tempo e lugar em que a Assunção deveria ter-se realizado: somente o fato da Assunção, em corpo e alma, à glória do Céu, constitui o objeto da definição. Aliás, um dos traços mais marcantes e autênticos do autêntico Catolicismo é este: nele, ainda quando não se têm os instrumentos teológico-filosóficos necessários para elucidar de todo uma questão, um senso especial de prudência impede que se dê o passo derradeiro para o abismo.
Também a Missa, se contenta em por em evidência a Assunção em si mesma com suas conveniências teológicas. Ela vê Maria glorificada na Mulher descrita no Apocalipse, na Filha do Rei vestida num manto de ouro do Salmo 44, na Mulher que, com seu Filho, será a inimiga vitoriosa do demônio, do Gênesis. Aplica-se os louvores cantados a Judite triunfante, e, sobretudo, vê a Assunção o coroamento de todas as glórias que procedem da maternidade divina e que Maria cantou ela mesma no seu Magnificat. As orações fazem-nos pedir a Deus a graça de podermos, como a SS Virgem, estar continuamente voltados para as coisas do Alto, esperar a ressurreição feliz e partilhar da sua glória no Céu.
Na liturgia encontra-se o culto da Assunção desde o século VI no Oriente. Em Jerusalém, comportava uma procissão ao túmulo da Virgem. Esta procissão estendeu-se à Constantinopla. Em Roma, do século VII ao XVI constituía uma das “procissões de ladainhas” e tinha lugar na basílica de Santa Maria Maior.
S. Jerônimo afirma que Maria subiu ao Céu no dia 18 das calendas de Setembro [15 de Agosto]: “Se alguns dizem que quem ressuscitou na mesma época que Cristo conheceu a Ressurreição perpétua, e se alguns acreditam que João, o guardião da Virgem, teve sua carne glorificada e desfruta da alegria celeste ao lado do Cristo, por que não acreditar com mais forte razão que o mesmo acontece com a mãe do Salvador? Aquele que disse: “Honre seu pai e sua mãe” (Êxodo 20, 12), e “Não vim destruir a lei, mas cumpri-la” (Mateus 5, 17), certamente honrou Sua mãe acima de todas as coisas, e por isso não duvidamos que o mesmo aconteceu com a bem-aventurada Maria”.
S. Agostinho não só afirma a mesma coisa, como também dá três provas disto. A primeira é que a carne de Cristo e a da Virgem são apenas uma: “Já que a natureza humana está condenada à podridão e aos vermes, e que Jesus foi poupado desse ultraje, a natureza de Maria também está imune a isso, pois foi nela que Jesus assumiu a sua natureza”. A Segunda razão é a dignidade de seu corpo: “O trono de Deus, o leito nupcial do Senhor, o tabernáculo de Cristo, deve estar onde Ele próprio está, pois é mais digno conservar este tesouro no Céu do que na Terra”. A terceira razão é a perfeita integridade de sua carne virginal. Ele diz a propósito: “Alegre-se, Maria, de uma alegria indizível em seu corpo e em sua alma, em seu próprio filho Cristo, com se próprio filho e por seu próprio filho, pois a pena da corrupção não deve ser conhecida por aquela que não teve sua integridade corrompida quando gerou seu filho. Será sempre incorrupta aquela que foi cumulada de tantas graças, que viveu íntegra, que gerou vida em total e perfeita integridade, que deve ficar junto daquele a quem carregou em seu útero, a quem gerou, aqueceu, nutriu – Maria, mãe de Deus, nutriz escrava de Deus. Por tudo isso não ouso pensar de outra maneira, seria presunção dizer diferente.
Ela foi levada ao Céu alegremente, como diz o bispo e mártir S. Geraldo em suas homilias: “Neste dia os Céus receberam a Bem-Aventurada Virgem alegremente com os Anjos regozijando, os Arcanjos jubilando, os Tronos animando-se, as Dominações celebrando-A em cânticos, os Principados unindo suas vozes, as Potências acompanhando com seus instrumentos musicais, os Querubins e os Serafins entoando hinos, e todos conduzindo até o elevado trono da divina Majestade (Lucas I, 67).
Ela foi levada ao Céu honrosamente, pois o próprio Jesus e toda a milícia celeste foram ao encontro dela. Diz S. Jerônimo: “Quem pode imaginar a glória de que a rainha do mundo foi cercada quando de sua passagem? Que afeto devoto dedicaram-lhe a multidão de legiões celestes que foram ao seu encontro! Como eram belos os cânticos que a acompanhavam até o seu trono! Que fisionomia tranqüila, que rosto sereno, que olhar elevado quando do braço de seu divino filho que a exaltava acima de todas as criaturas! Acredito que neste dia a milícia dos Céus foi festivamente encontrar a mãe de Deus cercando-a de imensa luz e conduzindo-a com loas e cânticos até o trono de Deus. A milícia da Jerusalém celeste estremeceu de inefável alegria, de indizível prazer, de imensa júbilo. Essa festa, que acontece apenas uma vez ao ano para nós, é ininterrupta nos Céus, com o próprio Salvador estando com ela durante toda a festa e colocando-a com alegria junto dele no trono. Se fosse diferente, não teria cumprido sua própria lei que diz: “Honre seu pai e sua mãe”.


Escrito por Maleus às 17h27
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A COMUNHÃO DO AMOR

Uma vez por todas, fique atento a este princípio: Ama, e faze
o que quiseres! Se calares, cala por amor. Se falares, fala
por amor. Se poupares, poupa por amor. Esteja em teu coração
a raiz do amor; dessa raiz só pode brotar coisa boa... Muitos
se abstêm do vinho, por causa dos irmãos mais fracos e por
causa da liberdade própria. Mas tudo deve ser feito conforme
o amor: o modo de viver, a palavra, a atitude externa, os
gestos. Dê cada um aquilo que tem. Um tem dinheiro: que
alimente os pobres, vista os nus, construa igrejas e faça com
o seu dinheiro todo o bem que puder. Outro possui o dom do
conselho: que seja um guia para o próximo, afugente com luz
amena as sombras da dúvida. Outro, ainda, tem inteligência e
erudição: que sirva do celeiro as iguarias do Senhor e
ofereça as refeições a seus semelhantes, fortaleça os
crentes, reconduza os errantes, vá em busca dos extraviados e
faça tudo o que estiver em seu poder. Também os pobres podem
prestar benefícios. Dificilmente se encontrará alguém que não
possa prestar socorro as ninguém. O último, porém não o
menor, vem nesta palavra do Apóstolo: "Suportai o fardo um do
outro, e assim cumprireis a lei do Cristo".
Se estenderes a mão, mas fechares o coração, nada fizeste.
Mas, se abrires o coração, ainda que nada tenhas a estender a
outrem, Deus aceita a tua esmola. Não é da bolsa que se tira
o amor.
O amor dentro de nós não sofre solução de continuidade, ao passo que os
deveres externos da caridade têm seu tempo e sua oportunidade. Deve a
caridade assemelhar-se ao fogo, apoderando-se primeiro do que fica mais
próximo, para depois estender-se ao mais distante. Teus irmãos te são mais
próximos do que todos os teus amigos. Um desconhecido é mais próximo do que
teu inimigo. São, pois, em primeiro lugar, os teus parentes, aqueles a quem
deves estender o teu amor... Dar com amor, nunca quer dizer perder. Dar é
lucro. Não se perde  o que se dá, mas possui-se ainda mais intensamente. E
assim como não se pode dar amor quando não se tem, só se tem amor quando se
dá. Cresce todas as vezes que se dá, e tanto mais amor se adquire, quanto
mais homens se tornam felizes por ele.
Assim é o amor: só ele conhece o segredo de enriquecer cada vez mais a si
mesmo dando aos outros.
 
Sto Agostinho


Escrito por Maleus às 12h17
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   Uma vez que ignoramos quais sejam os que pertencem ao número dos eleitos, devemos encher-nos de tanta força de amor, que a cada um desejemos a eterna felicidade, e ajudá-lo para que a alcance.  O que nos leva a compreender os homens, é unicamente a carinhosa participação da sua vida.  É o amor que nos dá conhecimento mais perfeito.
Nossos pais tinham o excelente costume de não rejeitar, mas de reconhecer o que de bom e divino encontrassem, não contaminado, em alguma heresia, ao passo que expunham e retificavam devidamente o que o erro ou cisma contivesse de estranho e peculiar.  Aos dissidentes devemos nós, os cristãos, demonstrar benevolência católica.  Trata-se de curá-los.  Estão com os olhos inflamados; só muito de leve podemos tocá-los.  Ninguém arme controvérsias com eles.  Ninguém se meta a polemizar, nem mesmo para defender sua fé, para que não venha acender-se alguma faísca, e para que, aos que procuram uma oportunidade, seja dada essa oportunidade.  "Antes de tudo, procurai  a paz e a santificação; porque sem elas ninguém pode contemplar a Deus" (Heb. 12,14).
A piedade procura Deus pela fé; a vaidade procura-o pela controvérsia.  São dignos de louvor os  que procuram a paz.  Os que a odeiam, devem ser antes apaziguados por meio da doutrina e do silêncio do que irritados pela censura.  Quem ama a paz, ama também os inimigos da paz.  Quem ama a luz, não se irrita contra o cego, mas tem pena dele. Antes de condenares o cego, procura curar o infeliz que estiver ao teu alcance. Ouves uma injúria? Tolera, cala, esquece. Lembra-te de que deves curar. Mas injuriam a Deus? Tu o percebes; e Deus não perceberia? Tu o sabes; e Deus não saberia? E, no entanto, "Ele deixa o seu sol nascer sobre bons e maus, e chover sobre justos e injustos".
Mas o que farei? Eu te direi: fora com toda contenda! Entrega-te à oração. Não refutes com injúrias o injuriador. Não digo que te cales, mas que reflitas: falarás com ele no silêncio, de lábios fechados. Deixa falar o coração. Mas se alguém fizer questão cerrada de não aceitar a paz, se a todo custo quiser brigar, responde-lhe pacientemente: "Dize o que quiseres; odeia o quanto quiseres; despreza à vontade: nem por isso deixas de ser meu irmão; irmão mau, irmão briguento, sim, mas sempre irmão..."
Andam por aí muitos faladores, mas corretos na fé. Nada mais fácil do que afirmar ou persuadir-se a si mesmo de haver encontrado a verdade: isto é dificílimo, na realidade! Queira Deus conceder-nos sentimentos de paz e um espírito tranqüilo que antes procure sanar do que aniquilar! Vociferar contra homens de outro credo é próprio daqueles que não sabem o quanto é trabalhoso encontrar a verdade e o quanto é difícil preservar-se do erro. Vociferem contra eles os que ignoram como é raro e penoso suplantar as complicadas imaginações humanas pela clareza de uma mente piedosa. Vociferem contra eles os que desconhecem a dificuldade que há em purificar a vista do homem interior, para que se capacite a ver o seu sol, o sol da justiça. Vociferem contra eles os que não sabem quanto gemidos e suspiros custa apanhar ao menos um tênue clarão do conhecimento divino e, finalmente, vociferem contra eles os que nunca sucumbiram à ilusão do erro! Eu, francamente, sou incapaz disso.
"Forçoso é que haja dissensões", diz o apóstolo. Com demasiada indolência procuraríamos a verdade, se ela não tivesse adversários. Muitas coisas que fazem parte da fé católica devem primeiramente ser impugnadas pelas paixões irrequietas dos hereges, para que, depois, sejam apreendidas com maior clareza e realçadas com maior precisão. A questão tratada pelo adversário, torna-se estímulo para uma compreensão mais profunda. Assim, os hereges, por sua atitude hostil, trazem proveito aos membros verdadeiramente católicos do corpo do Cristo. Deus se serve também dos maus. Por isso, a igreja deve trilhar o seu caminho até o fim, entre as perseguições do mundo e as consolações de Deus. O aguilhão do temor, o tormento das dores, o peso dos trabalhos, o perigo das tentações: tudo isso, para ela, redunda, no mundo presente, em educação e purificação.
Sermões, 357, 240, 51.



Escrito por Maleus às 12h15
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   Sobre a Virgem: escritos de um filho de Maria (mesmo que não saiba disso...)

Mui querida Mãe,
 
Vós, que abrigastes em vosso bem-aventurado ventre o Salvador da humanidade;
 
Que provestes Deus dos nutrientes indispensáveis ao desenvolvimento do sagrado Feto;
 
Que destes à luz — que acontecimento tremendo! — a forma humana e finita do Criador;
 
Que amamentastes, ternamente, o Senhor do Universo;
 
Que acalmastes e fizestes adormecer o nosso Redentor;
 
Que transmitistes, junto com vosso esposo José, as primeiras palavras e os primeiros ensinamentos ao Deus onisciente;
 
Que vistes, de perto, crescer, em formosura e graça, o Filho de Deus;
 
Que presenciastes o nascer do ministério do maior mestre que já andou por esse mundo;
 
Que acompanhastes todo o sofrimento, toda a dor e a morte cruenta de Nosso Senhor Jesus Cristo;
 
Que vos rejubilastes com vitória sobre a morte e com a gloriosa ressurreição do Cristo;
 
A vós, a mais bem-aventurada das mulheres, que encontrastes graça aos olhos do Senhor;
 
A vós, a escolhida pelo Eterno para trazer ao mundo o Caminho, a Verdade e a Vida;
 
A vós, sagrada e querida mãe, eu vos peço: intercedei por esse filho rebelde, que ousa vos dirigir essa prece imperfeita;
 
Todo o poder é de Deus, mas vós, o mais especial dos seres simplesmente humanos, estás junto a Ele;
 
Com vosso amor materno, potenciação infinita do amor que tenho recebido da minha querida mãe terrena, rogai por mim, pobre pecador;
 
Estendei o vosso manto sublime sobre mim e acolhei em vossos braços — os mesmos que embalaram o nosso Salvador — esse filho maltrapilho;
 
Perdoai-me pela indiferença de tantos anos, pela falta de respeito e pelas tristezas que vos causei;
 
Se o amor de minha mãe terrena é tremendo, infinitamente maior será o vosso;
 
Que vossa lembrança/presença seja cada vez mais concreta na minha vida;
 
Ave, Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco,
Bendita sois vós entre as mulheres
E bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus
Santa Maria, mãe de Deus
Rogai por nós, pecadores, agora e na hora da nossa morte
Amém
 
 
Quando meditamos na maravilha da Encarnação, é impossível não nos emocionarmos com a bem-aventurança de Maria. Imaginemos o momento da concepção, o instante único e decisivo de toda a história do cosmo, em que o Criador assume a forma humana. Que anagogia não terá experimentado a Virgem! Com efeito, Maria sublimou o ser humano de modo ímpar, elevando-o à condição de depositário do Senhor do Universo. No ventre excelso e imaculado de Maria (sim, tal santuário jamais poderia ser profanado), foi gestada humanidade de Deus. A Virgem santíssima alimentou, com seiva e sangue, o próprio Deus. Pelo sacrossanto cordão umbilical, nossa Mãe nutriu o feto divino (e que dor Ela terá sentido, quando tal cordão foi cortado?)
 
Maria amamentou o Deus Filho. Acalentou nosso Salvador com sua voz maviosa de mãe amorosa. Acompanhou, com incomparáveis orgulho e amor maternais, o crescimento daquEle que daria a vida por nossos pecados.
 
Ainda assim, apesar de tão grande honra, permaneceu humilde nossa Mãe querida! À sombra de seu Filho, Maria soube manter-se digna até o fim.
 
Como meditar sobre a grandeza de Cristo, sem lembrar de sua Mãe santíssima? Como refletir sobre o mistério insondável da Encarnação, sem engrandecer aquela que cedeu de sua própria carne ao Deus dos deuses?
 
Desmerecer Maria é menosprezar o próprio Jesus Cristo em Sua natureza divino-humana. Pois se Ele foi verdadeiramente homem e verdadeiramente Deus, Maria foi mãe de Deus. Entre Deus e Maria estabeleceu-se uma relação única e inigualável entre o humano e o divino.
 
Sendo Mãe de Deus, Maria, a nova Eva, tornou-se também mãe não só de todos os cristãos, mas de todo o gênero humano.
 
E nossa Mãe Maria, em seu incomensurável amor, poderia deixar de interceder por nós no céu?

Não importa se a mente humana não é capaz de entender como uma mulher possa ser mãe do Deus eterno. O fato, incontestável, é que Maria foi (é) mãe de Deus, a não ser que seja possível separar a humanidade de Jesus de Sua divindade. Por esse motivo, quanto mais veementemente afirmarmos a divindade de Jesus de Nazaré, mais veementemente teremos de reconhecer que Maria foi (é) Mãe de Deus. Se os protestantes não conseguem conceber que o Deus eterno tenha uma mãe, que decepem as próprias cabeças ("Por isso, se tua mão ou teu pé te fazem cair em pecado, corta-os e lança-os longe de ti: é melhor para ti entrares na vida coxo ou manco que, tendo dois pés e duas mãos, seres lançado no fogo eterno. Se teu olho te leva ao pecado, arranca-o e lança-o longe de ti: é melhor para ti entrares na vida cego de um olho que seres jogado com teus dois olhos no fogo da geena." Mateus 18, 8-9).

Maria jamais será suficientemente louvada, tamanha a sua graça. Se a Terra se enchesse completamente de templos em honra a Maria, Ela não seria suficientemente louvada.

Deus parece ter feito silêncio sobre Maria nos Evangelhos, para dar à Sua Igreja e aos seus santos a maravilhosa oportunidade de extrair, da silenciosa passagem da Virgem pelas Escrituras, as mais sublimes conclusões. Fazendo assim, nosso Deus, sábia e amorosamente, transformou Maria numa fonte inesgotável de piedade e amor, uma fonte que, infelizmente, permanece oculta para os protestantes. Do silêncio bíblico de e sobre Maria, o mais eloqüente de todos os silêncios, a cristandade jamais conseguirá haurir toda a riqueza teológica.
 
 


Escrito por Maleus às 22h12
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Poema da Virgem

(Padre José de Anchieta)

Compaixão da Virgem na Morte do Filho

Por que ao profundo sono, alma, tu te abandonas,
e em pesado dormir, tão fundo assim ressonas?
Não te move a aflição dessa mãe toda em pranto,
que a morte tão cruel do filho chora tanto?
O seio que de dor amargado esmorece,
ao ver, ali presente, as chagas que padece?
Onde a vista pousar, tudo o que é de Jesus,
ocorre ao teu olhar vertendo sangue a flux.
Olha como, prostrado ante a face do Pai,
todo o sangue em suor do corpo se lhe esvai.
Olha como a ladrão essas bárbaras hordas
pisam-no e lhe retêm o colo e mãos com cordas.
Olha, perante Anás, como duro soldado
o esbofeteia mau, com punho bem cerrado.
Vê como, ante Caifás, em humildes meneios,
agüenta opróbrios mil, punhos, escarros feios.
Não afasta seu rosto ao que o bate, e se abeira
do que duro lhe arranca a barba e cabeleira.
Olha com que azorrague o carrasco sombrio
retalha do Senhor a meiga carne a frio.
Olha como lhe rasga a cerviz rijo espinho,
e o sangue puro risca a face toda arminho.
Pois não vês que seu corpo, incivilmente leso,
mal susterá ao ombro o desumano peso?
Vê como a dextra má finca em lenho de escravo
as inocentes mãos com aguçado cravo.
Olha como na cruz finca a mão do algoz cego
os inocentes pés com aguçado prego.
Ei-lo, rasgado jaz nesse tronco inimigo,
e c'o sangue a escorrer paga teu furto antigo!
Vê como larga chaga abre o peito, e deságua
misturado com sangue um rio todo d'água.
Se o não sabes, a mãe dolorosa reclama
para si quanto vês sofrer ao filho que ama.
Pois quanto ele aguentou em seu corpo desfeito,
tanto suporta a mãe no compassivo peito.
Ergue-te pois e, atrás da muralha ferina
cheio de compaixão, procura a mãe divina.
Deixaram-te uma e outro em sinais bem marcada
a passagem: assim, tornou-se clara a estrada.
Ele aos rastros tingiu com seu sangue tais sendas,
ela o solo regou com lágrimas tremendas.
Procura a boa mãe, e a seu pranto sossega,
se acaso ainda aflita às lágrimas se entrega.
Mas se essa imensa dor tal consolo invalida,
porque a morte matou a vida à sua vida,
ao menos chorarás todo o teu latrocínio,
que foi toda a razão do horrível assassínio.
Mas onde te arrastou, mãe, borrasca tão forte?
que terra te acolheu a prantear tal morte?
Ouvirá teu gemido e lamento a colina,
em que de ossos mortais a terra podre mina?
Sofres acaso tu junto à planta do odor,
em que pendeu Jesus, em que pendeu o amor?
Eis-te aí lacrimosa a curtir pena inteira,
pagando o mau prazer de nossa mãe primeira!
Sob a planta vedada, ela fez-se corruta:
colheu boba e loquaz, com mão audaz a fruta.
Mas a fruta preciosa, em teu seio nascida,
à própria boa mãe dá para sempre a vida,
e a seus filhos de amor que morreram na rega
do primeiro veneno, a ti os ergue e entrega.
Mas findou tua vida, essa doce vivência
do amante coração: caiu-te a resistência!
O inimigo arrastou a essa cruz tão amarga
quem dos seios, em ti, pendeu qual doce carga.
Sucumbiu teu Jesus transpassado de chagas,
ele, o fulgor, a glória, a luz em que divagas.
Quantas chagas sofreu, doutras tantas te dóis:
era uma só e a mesma a vida de vós dois!
Pois se teu coração o conserva, e jamais
deixou de se hospedar dentro de teus umbrais,
para ferido assim crua morte o tragar,
com lança foi mister teu coração rasgar.
Rompeu-te o coração seu terrível flagelo,
e o espinho ensangüentou teu coração tão belo.
Conjurou contra ti, com seus cravos sangrentos,
quanto arrastou na cruz o filho, de tormentos.
Mas, inda vives tu, morto Deus, tua vida?
e não foste arrastada em morte parecida?
E como é que, ao morrer, não roubou teus sentidos,
se sempre uma alma só reteve os dois unidos?
Não puderas, confesso, agüentar mal tamanho,
se não te sustentasse amor assim estranho;
se não te erguesse o filho em seu válido busto,
deixando-te mais dor ao coração robusto.
Vives ainda, ó mãe, p'ra sofrer mais canseira:
já te envolve no mar uma onda derradeira.
Esconde, mãe, o rosto e o olhar no regaço:
eis que a lança a vibrar voa no leve espaço.
Rasga o sagrado peito a teu filho já morto,
fincando-se a tremer no coração absorto.
Faltava a tanta dor esta síntese finda,
faltava ao teu penar tal complemento ainda!
Faltava ao teu suplício esta última chaga!
tão grave dor e pena achou ainda vaga!
Com o filho na cruz tu querias bem mais:
que pregassem teus pés, teus punhos virginais.
Ele tomou p'ra si todo o cravo e madeiro
e deu-te a rija lança ao coração inteiro.
Podes mãe, descansar; já tens quanto querias:
Varam-te o coração todas as agonias.
Este golpe encontrou o seu corpo desfeito:
só tu colhes o golpe em compassivo peito.
Chaga santa, eis te abriu, mais que o ferro da lança,
o amor de nosso amor, que amou sem temperança!
Ó rio, que confluis das nascentes do Edém,
todo se embebe o chão das águas que retém!
Ó caminho real, áurea porta da altura!
Torre de fortaleza, abrigo da alma pura!
Ó rosa a trescalar santo odor que embriaga!
Jóia com que no céu o pobre um trono paga!
Doce ninho no qual pombas põem seus ovinhos
e casta rola nutre os tenros filhotinhos!
Ó chaga que és rubi de ornamento e esplendor,
cravas os peitos bons de divinal amor!
Ó ferida a ferir corações de imprevisto,
abres estrada larga ao coração de Cristo!
Prova do estranho amor, que nos força à unidade!
Porto a que se recolhe a barca em tempestade!
Refugiam-se a ti os que o mau pisa e afronta:
mas tu a todo o mal és medicina pronta!
Quem se verga em tristeza, em consolo se alarga:
por ti, depõe do peito a dura sobrecarga!
Por ti, o pecador, firme em sua esperança,
sem temor, chega ao lar da bem-aventurança!
Ó morada de paz! sempre viva cisterna
da torrente que jorra até a vida eterna!
Esta ferida, ó mãe, só se abriu em teu peito:
quem a sofre és tu só, só tu lhe tens direito.
Que nesse peito aberto eu me possa meter,
possa no coração de meu Senhor viver!
Por aí entrarei ao amor descoberto,
terei aí descanso, aí meu pouso certo!
No sangue que jorrou lavarei meus delitos,
e manchas delirei em seus caudais benditos!
Se neste teto e lar decorrer minha sorte,
me será doce a vida, e será doce a morte!



Escrito por Maleus às 07h20
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Poderia escrever muitas coisas sobre ele - mais especificamente sobre o que ele pode fazer conosco - mas me limitarei a uma pequena passagem. Lembram quando Maria tenta alcançar o filho durante a Via Dolorosa? Não conseguindo o intento, impedida pela turba, toma ela, junto com João e a Madalena, uma viela secundária para alcançá-lO. Ao chegar próximo, sente-se paralizada pela dor que lhe invade a alma: é seu Filho que está a sofrer. 
Ao passar a comissão, Jesus cai. Maria, Sua Mãe, corre para acudí-lO. Lembra da Sua infância de Menino quando caiu "aquela vez próximo da casa". Corre como quem corre pela Sua Vida, corre como quem corre para a Sua Vida, corre para o Seu Amor, Seu Tesouro: Filho é o nosso coração que habita em outro corpo... Abraça-O, beija-lhe a Face, tenta confortá-lO. "__ Viu, mãe, como eu crio tudo mais uma vez, eternamente?"
Que esse amor imorredouro e sempiterno, de uma Mãe pelo Seu Filho e do Filho pela Sua Mãe, nos alimente a cada dia.
 
 
 
 


Escrito por Maleus às 07h19
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   Teste

Testando: um, dois três, quatro. Sssssssom. Sssssssom.

Escrito por Maleus às 02h16
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